Categoria: Arquitetura

Alicante planeia 14.300 novas casas com forte aposta na reabilitação urbana

O novo Plano Geral Estrutural (PGE) de Alicante prevê a criação de cerca de 14.300 novas habitações, maioritariamente através de operações de transformação de antigas áreas industriais e de regeneração de vazios urbanos na malha já consolidada da cidade. Trata-se de um documento estratégico que redesenha o futuro urbano de Alicante, com forte enfoque na habitação acessível e na requalificação de espaços degradados ou subaproveitados, em vez de apostar apenas na expansão para novas periferias.

Transformação de áreas industriais em novos bairros (OTE)

O PGE estrutura a maior parte deste crescimento residencial através das chamadas Operações de Transformação Estrutural (OTE), que incidem sobre solos industriais em reconversão. No total, estas operações somam cerca de 12.300 novas habitações, com uma combinação de usos residenciais, terciários e produtivos compatíveis, desenhada para criar bairros mistos, dinâmicos e funcionalmente diversificados. Cerca de 40% do total das novas casas será em regime de habitação protegida, reforçando a oferta para famílias e grupos com maior dificuldade de acesso ao mercado.

A peça central deste processo é a OTE-1 Florida-Babel, um amplo perímetro de cerca de 98 hectares, situado entre a Vía Parque e o novo eixo articulador previsto pelo PGE. Aqui está prevista a construção de aproximadamente 8.600 habitações numa ordenação de maior densidade, apoiada por espaços públicos qualificados, novas ligações urbanas, equipamentos e serviços. Esta operação está condicionada pelo atual traçado ferroviário em trincheira; a sua futura integração através do enterramento da linha permitirá criar um eixo verde contínuo, ligando diretamente esta área requalificada ao litoral, com ganhos significativos em termos de mobilidade suave e qualidade ambiental.

A OTE-2 Polígono Rabasa, com 41 hectares e capacidade para cerca de 3.700 habitações, representa outro eixo estratégico. O plano prevê a reconversão de um tecido industrial tradicional num modelo urbano misto, com predominância residencial mas mantendo usos terciários e produtivos. A proximidade ao campus universitário e ao Parque Científico-tecnológico coloca esta zona como uma oportunidade clara para responder à procura de habitação por parte de estudantes, investigadores e profissionais qualificados, promovendo um bairro com forte componente de inovação, serviços e conhecimento.

O desenvolvimento destas OTE será concretizado através de Planos de Reforma Interior (PRI), maioritariamente com atuações isoladas e faseadas. Este método permite uma transição gradual, reduzindo impactos e, sempre que possível, mantendo usos existentes que sejam compatíveis com o novo ordenamento urbano, o que favorece a continuidade social e económica dos bairros.

Regeneração estrutural e novos espaços verdes (ORE)

Complementarmente, o PGE ativa Operações de Regeneração Estrutural (ORE), dedicadas a vazios urbanos e áreas subutilizadas no interior da cidade. No conjunto, estas operações representam cerca de 2.000 novas habitações, mas o seu impacto vai muito além do número de casas, ao introduzir grandes espaços verdes, equipamentos e infraestruturas de mobilidade.

A primeira intervenção é a ORE Parque Central, já contemplada no planeamento em vigor. O plano abrange cerca de 37 hectares, mais a peça dotacional associada à estação de Renfe, e prevê um parque urbano com pelo menos 150.000 m², a integração da estação ferroviária num nó intermodal e cerca de 1.400 novas habitações. Esta operação reforça Alicante como cidade compacta e bem servida de transportes públicos, articulando ferrovia, modos suaves e espaço público de qualidade.

A ORE-2 Sangueta, junto à fachada litoral, entre o Castelo de Santa Bárbara e a Serra Grossa, aposta num modelo com predominância de edificabilidade para atividade económica, complementada por cerca de 200 habitações. Está prevista uma grande zona verde virada ao mar, equipamentos desportivos e um depósito anti-DSU (para gestão de águas pluviais), bem como o estudo da conservação dos blocos existentes. A reorganização das infraestruturas e dos arruamentos perimetrais visa melhorar a conectividade urbana, ligando melhor esta frente marítima ao resto da cidade.

Por fim, a ORE Parque del Mar, na envolvente da antiga estação de Benalúa, procura reforçar a continuidade dos espaços livres e criar um grande eixo ambiental e urbano. O plano inclui um parque com função de acumulação de água, novas dotações públicas, cerca de 400 habitações e solo para usos terciários e serviços. Esta intervenção contribui para a resiliência face a episódios de chuva intensa e valoriza uma área com forte potencial de requalificação, reforçando a relação entre cidade e mar.

Alicante como laboratório de regeneração urbana – e o que isto pode inspirar

O PGE de Alicante está em fase de participação pública e é apresentado pelo município como o documento urbanístico mais relevante das últimas quase quatro décadas. A combinação entre transformação de áreas industriais obsoletas, regeneração de vazios urbanos, aumento de habitação protegida e criação de grandes parques e eixos verdes posiciona a cidade como um verdadeiro laboratório de urbanismo sustentável e inclusivo.

Para profissionais e entidades ligados à construção, planeamento urbano e gestão de património edificado, este plano oferece múltiplos ensinamentos: da integração do transporte ferroviário na malha urbana, à reconversão de polígonos industriais em bairros mistos, passando pela importância de articular habitação acessível, espaços verdes e atividade económica. Modelos deste tipo podem inspirar outras cidades que enfrentam desafios semelhantes de falta de habitação, degradação de áreas industriais e pressão sobre o solo urbano.

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