Categoria: Sustentabilidade

Soluções baseadas na natureza: um novo rumo para a gestão da água

Num contexto de alterações climáticas, secas recorrentes, inundações súbitas e pressão crescente sobre rios e aquíferos, olhar apenas para grandes obras de betão e tecnologia pesada já não é suficiente. Um relatório recente da Fundación Renovables, apoiado pelo Ministério para a Transição Energética e o Desafio Demográfico de Espanha, coloca as soluções baseadas na natureza (SBN) como complemento essencial às infraestruturas tradicionais, mostrando como os ecossistemas podem ser aliados operacionais na gestão sustentável da água.

O que são soluções baseadas na natureza e porque importam para a água

As soluções baseadas na natureza são estratégias, medidas e intervenções que utilizam os ecossistemas – e os serviços que estes prestam – para responder a desafios como as alterações climáticas, a segurança alimentar, o risco de desastres ou a escassez de água. Em vez de depender exclusivamente de estações de tratamento complexas, condutas e barragens, estas soluções potenciam as funções naturais dos solos, da vegetação e das massas de água para resolver problemas ambientais e urbanos.

O relatório da Fundación Renovables mostra que, em Espanha e na Europa, já estão em marcha diversas actuações deste tipo: desde coberturas vegetais em edifícios até sistemas de lagunagem para tratar grandes caudais de águas residuais, passando por práticas de pastoreio regenerativo que melhoram o solo e a infiltração de água. Na área do saneamento, a resposta clássica tem sido apostar em infraestruturas “cinzentas” de depuração, que efectivamente ajudaram a reduzir a poluição das massas de água nas últimas décadas.

No entanto, estas estratégias convencionais, por si só, não estão a atingir os objectivos ambientais e de sustentabilidade que a crise climática exige. As SBN surgem assim como ferramentas complementares com dupla função: por um lado, conservar e restaurar ecossistemas valiosos ou degradados; por outro, reforçar a prevenção face a fenómenos extremos como cheias repentinas, secas severas e outros desastres naturais. Em Espanha, a actuação mais comum em ambiente fluvial tem sido a manutenção e ampliação de zonas húmidas, enquanto as soluções orientadas directamente para o tratamento de águas residuais urbanas, agrícolas e industriais ainda têm uma implantação limitada – um sinal claro de um potencial por explorar.

Drenagem urbana sustentável: cidades mais permeáveis e seguras

Uma das áreas em que as soluções baseadas na natureza mostram maior potencial é a dos sistemas urbanos de drenagem sustentável. O relatório identifica a forte impermeabilização das cidades – resultado do asfalto, betão e passeios contínuos – como um problema crítico: a água da chuva escorre rapidamente à superfície, em vez de infiltrar no solo, reduzindo a recarga dos aquíferos urbanos e aumentando o risco de inundações durante episódios de precipitação intensa.

Entre as soluções destacadas estão os parques inundáveis, concebidos como espaços de lazer e paisagem em períodos secos, mas preparados para receber grandes volumes de água quando chove com intensidade. O Parque La Marjal, em Alicante, é um exemplo ilustrativo: com 3,6 hectares, pode armazenar até 45.000 m³ de águas pluviais. Em 2019 acolheu 22.000 m³ de água da chuva, posteriormente evacuados de forma controlada para uma estação de tratamento antes da descarga final. Este tipo de solução reduz o pico de caudal nas redes de drenagem, protege zonas urbanas baixas e cria, ao mesmo tempo, um espaço verde de qualidade para a população.

O documento destaca também os processos de fitorremediação, baseados na capacidade das plantas para intervir no tratamento da água, retendo poluentes e melhorando a sua qualidade. Em contexto urbano, estes sistemas podem ser aplicados através de coberturas e fachadas verdes, que não só permitem a regeneração de água para usos como rega ou autoclismos, como ainda reduzem a radiação solar que incide sobre o edifício e ajudam a baixar a temperatura interior. O resultado é um conjunto de benefícios combinados: menor pressão sobre os sistemas de depuração, menor consumo energético em climatização e maior conforto térmico urbano.

Para além do betão: múltiplos benefícios das SBN

As SBN distinguem-se das infraestruturas cinzentas porque se apoiam nas dinâmicas dos processos naturais e exigem, regra geral, menos intervenção humana intensiva. Ao contrário de modelos centrados em maximizar a depuração através de reagentes químicos, elevado consumo de energia e manutenção constante, estas soluções incorporam uma visão mais ampla, onde a qualidade da água é apenas uma parte do objectivo.

O relatório sublinha que a restituição da água é apenas uma das funções destas instalações. As soluções baseadas na natureza podem proporcionar benefícios adicionais como o sequestro de carbono, o aumento da biodiversidade, a redução da exposição a inundações e outros riscos climáticos, bem como a valorização paisagística dos espaços onde se inserem. Tudo isto contribui para territórios mais resilientes, cidades mais habitáveis e uma gestão da água mais integrada e eficiente.

Conclusão e call-to-action

As soluções baseadas na natureza representam um novo rumo para a água: complementam as infraestruturas existentes, reduzem riscos, melhoram o ambiente urbano e rural e criam valor ecológico e social. Para administrações públicas, responsáveis de planeamento, empresas e técnicos do sector da construção, o desafio agora é passar da teoria à prática.

Se está envolvido em projectos de urbanismo, gestão da água, reabilitação de edifícios ou planeamento territorial, considere integrar SBN desde a fase de concepção: avalie oportunidades para parques inundáveis, soluções de drenagem sustentável, coberturas verdes ou sistemas de fitorremediação. O próximo passo depende de si: inclua a natureza como aliada nos seus projectos e contribua para uma gestão da água mais segura, sustentável e preparada para as alterações climáticas.

an orange flower with water droplets on it

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