Categoria: Arquitetura

Biblioteca Samsung nº 3 em Xi’an: arquitetura inovadora ao serviço da educação rural

Na encosta das Montanhas Qinling, na China, um projecto discreto em dimensão, mas ambicioso em impacto, está a redefinir a forma como pensamos a construção em meios rurais. A Biblioteca Samsung nº 3, em Xi’an, com apenas 350 m², integra um programa de Responsabilidade Social da Samsung (China) Semiconductor e demonstra como a arquitectura pode ir muito além de um simples edifício, tornando‑se um instrumento de inclusão, aprendizagem e participação comunitária.

Uma série de bibliotecas que transforma escolas e aldeias

Desde 2020, o estúdio Yuan Architecture Studio vem desenvolvendo uma série de três bibliotecas escolares rurais nos arredores de Xi’an, em colaboração com a Samsung. A paisagem é marcada pelas Montanhas Qinling, mas também pela carência de equipamentos educativos de qualidade. Cada uma destas bibliotecas procura responder a necessidades concretas, evoluindo a estratégia arquitectónica a partir da experiência anterior.

A primeira, o Pavilhão de Livros Zhongnan (2021), concentrou‑se na revitalização do campus escolar. O projecto reorganizou espaços, melhorou percursos e criou um ponto de encontro acolhedor para alunos e professores. Não se tratou apenas de “adicionar” uma biblioteca, mas de usar a arquitectura para renovar a vida quotidiana da escola, tornando o ambiente mais estimulante e funcional.

A segunda, o Pavilhão de Livros Qin Feng (2023), deu um passo além, ao funcionar como ponte entre a escola e a aldeia. Em vez de um espaço fechado apenas ao uso escolar, a biblioteca foi desenhada como uma área partilhada, aberta à comunidade. Assim, pais, crianças, vizinhos e professores passaram a dividir o mesmo espaço, reforçando laços sociais e valorizando a escola como centro cívico local.

A Biblioteca Samsung nº 3, em Xi’an, surge neste percurso como continuação lógica e amadurecida destas experiências. Mantém a escala contida – 350 m² – mas aprofunda o conceito de participação e flexibilidade no uso do espaço, alinhando‑se com uma visão mais ampla da arquitectura como processo colaborativo.

Arquitectura aberta: entre o que é fixo e o que é partilhado

Ao longo destes projectos, os arquitectos identificaram uma questão central na construção em contexto rural: a necessidade de definir claramente o que é controlado pelo arquitecto e o que permanece em aberto para uso e adaptação por professores e alunos. A biblioteca deixa de ser um espaço rígido para se tornar um “suporte” onde a comunidade pode intervir, reorganizar, apropriar‑se.

Esta abordagem está em sintonia com o conceito de “Open Building”, desenvolvido por N. John Habraken. Em termos simples, a ideia passa por distinguir entre:

Elementos permanentes – estrutura, envolvente, sistemas básicos (como iluminação, ventilação, estabilidade). São definidos com rigor pelo arquitecto para garantir segurança, conforto e durabilidade.

Elementos flexíveis – mobiliário, disposição das áreas de leitura, espaços de estudo, zonas de exposição de trabalhos, pequenos recantos para actividades em grupo. Estes são pensados como componentes modificáveis, que podem ser alterados pelos próprios utilizadores.

Na Biblioteca Samsung nº 3, esta lógica permite que professores e alunos co‑criem o seu ambiente de aprendizagem. Podem reorganizar estantes, criar pequenas áreas temáticas, instalar ecrãs para actividades digitais ou montar zonas de leitura mais informais no chão, conforme as necessidades do momento. A arquitectura deixa, assim, espaço para a mudança, em vez de impor uma solução definitiva e fechada.

Impacto social e educativo de um pequeno edifício

Embora a área construída seja relativamente reduzida, o impacto deste tipo de biblioteca é significativo. Num contexto rural, onde muitas escolas têm recursos limitados, um espaço bem pensado pode:

Melhorar as condições de estudo, oferecendo um ambiente calmo, iluminado e confortável, próprio para a leitura e a concentração.

Fomentar o sentido de pertença, ao envolver alunos e professores na adaptação do espaço, promovendo responsabilidade e cuidado com o edifício.

Reforçar a ligação comunidade‑escola, quando a biblioteca é aberta a vizinhos, famílias e associações locais, tornando‑se um ponto de encontro e de actividades culturais.

Valorizar o território rural, mostrando que a arquitectura de qualidade não é exclusiva dos grandes centros urbanos e que investir em boas bibliotecas é investir no futuro das crianças.

O trabalho dos Wall Architects of XAUAT e do Yuan Architecture Studio, registado nas fotografias de Jinquan Kong, evidencia como uma intervenção arquitectónica estratégica, apoiada por programas de responsabilidade social, pode gerar mudanças duradouras no quotidiano de uma comunidade.

Conclusão: uma nova forma de pensar bibliotecas rurais

A Biblioteca Samsung nº 3 em Xi’an representa uma síntese de várias ideias contemporâneas sobre arquitectura, educação e participação. Ao articular elementos fixos com componentes abertos à intervenção dos utilizadores, o projecto demonstra que a construção em contexto rural pode ser inovadora, inclusiva e profundamente humana.

Se se interessa por arquitectura, educação ou desenvolvimento rural, vale a pena acompanhar estes exemplos e repensar como projectamos escolas, bibliotecas e espaços públicos. Partilhe este artigo, discuta estas ideias com colegas e considere como o conceito de “Open Building” pode inspirar os próximos projectos na sua comunidade ou organização.

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